Esdras Dantas de Souza: O que é o Processo Civil?
Estudos de Direito Processual Civil – Série Entendendo o Processo Civil --
Compreender o Processo Civil é entender como o Estado
transforma conflitos em soluções jurídicas, garantindo direitos, promovendo a
justiça e fortalecendo a cidadania.
O que é o Processo Civil?
Introdução
Ao longo da vida, pessoas e empresas estabelecem relações
das mais diversas naturezas. Celebram contratos, constituem famílias, adquirem
bens, realizam negócios, assumem obrigações e exercem direitos. Naturalmente,
nem sempre essas relações se desenvolvem de forma harmoniosa. Quando surge um
conflito que não pode ser resolvido espontaneamente, o Estado é chamado a atuar
para assegurar a aplicação do Direito.
É justamente nesse contexto que se insere o Processo
Civil.
Muito mais do que um conjunto de regras técnicas, o
Processo Civil representa o instrumento jurídico criado para permitir que o
Poder Judiciário resolva conflitos de interesses de forma justa, imparcial e
conforme a Constituição e as leis.
Para o estudante de Direito, compreender esse instituto
significa dar os primeiros passos no estudo da atividade jurisdicional. Para o
advogado, representa conhecer o caminho adequado para defender os interesses de
seu cliente. Para toda a sociedade, o Processo Civil constitui uma das mais
importantes garantias do Estado Democrático de Direito.
O que é o Processo Civil?
O Processo Civil pode ser definido como o conjunto
organizado de normas, princípios e procedimentos que disciplinam a atuação do
Poder Judiciário na solução dos conflitos de natureza não penal.
Por meio dele, o Estado exerce a jurisdição, substituindo
a vontade das partes por uma decisão imparcial e fundamentada.
Em outras palavras, quando duas pessoas não conseguem
solucionar uma controvérsia por meio do diálogo ou da negociação, o Processo
Civil oferece um caminho legal para que um juiz examine os fatos, aplique o
Direito e profira uma decisão.
O Processo Civil, portanto, não cria direitos. Sua missão
é assegurar que os direitos previstos no ordenamento jurídico sejam
efetivamente protegidos.
O fundamento constitucional do Processo Civil
A Constituição Federal assegura a todos o direito de
acesso à Justiça.
O artigo 5º, inciso XXXV, estabelece que:
"A lei não excluirá da apreciação do Poder
Judiciário lesão ou ameaça a direito."
Esse dispositivo revela um dos pilares do Estado
Democrático de Direito: ninguém pode ser impedido de buscar a tutela
jurisdicional quando entende que seu direito foi violado ou ameaçado.
Além disso, diversos princípios constitucionais orientam
todo o Processo Civil, entre eles:
- devido
processo legal;
- contraditório;
- ampla
defesa;
- isonomia;
- motivação
das decisões judiciais;
- publicidade
dos atos processuais;
- duração
razoável do processo.
O Código de Processo Civil de 2015 incorporou esses
princípios logo em seus primeiros artigos, reafirmando que a atividade
jurisdicional deve ser exercida com respeito à Constituição.
Qual é a finalidade do Processo Civil?
A finalidade do Processo Civil vai muito além de
simplesmente declarar quem tem razão.
Seu objetivo é proporcionar uma solução justa, efetiva e
tempestiva para os conflitos submetidos ao Poder Judiciário.
Ao decidir uma causa, o juiz busca:
- pacificar
o conflito;
- assegurar
a aplicação da lei;
- proteger
direitos;
- preservar
a segurança jurídica;
- promover
a paz social.
Por essa razão, afirma-se que o Processo Civil possui
relevante função social.
Uma sociedade em que os conflitos são resolvidos de
maneira civilizada tende a ser mais estável, segura e democrática.
Processo, ação e procedimento: conceitos que não se
confundem
Uma das primeiras dificuldades enfrentadas pelos
estudantes consiste em diferenciar esses três conceitos.
Ação é o direito de provocar a atuação do Poder
Judiciário.
Processo é a relação jurídica estabelecida entre juiz,
autor e réu para solucionar uma controvérsia.
Procedimento corresponde à sequência organizada de atos
processuais prevista em lei.
Em termos simples:
- a
ação inicia a atuação jurisdicional;
- o
processo é o instrumento pelo qual essa atuação se desenvolve;
- o
procedimento é o modo como os atos são praticados.
Compreender essa distinção evita inúmeros equívocos ao
longo do estudo do Direito Processual Civil.
Os princípios que orientam o Processo Civil
Nenhum processo existe apenas para cumprir formalidades.
Toda atividade jurisdicional deve observar princípios
fundamentais.
Entre os mais importantes destacam-se:
Devido processo legal
Ninguém pode ser privado de seus direitos sem que sejam
observadas todas as garantias legais.
Contraditório
Toda parte tem o direito de conhecer as alegações da
parte contrária e de se manifestar sobre elas.
Ampla defesa
As partes devem possuir todos os meios legais para
demonstrar suas razões.
Cooperação
O CPC de 2015 inovou ao estabelecer que juiz, advogados e
partes devem cooperar para alcançar uma decisão justa.
Boa-fé processual
Todos os participantes do processo devem agir com
lealdade, honestidade e respeito às regras processuais.
Como o Processo Civil aparece na vida das pessoas?
Embora muitas vezes pareça distante, o Processo Civil
está presente em inúmeras situações do cotidiano.
Por exemplo:
- cobrança
de uma dívida;
- ação
de indenização por acidente;
- disputa
sobre propriedade de imóvel;
- inventário;
- divórcio;
- guarda
de filhos;
- alimentos;
- revisão
contratual;
- responsabilidade
civil;
- conflitos
entre vizinhos.
Sempre que uma dessas questões necessita da intervenção
do Judiciário, aplica-se o Processo Civil.
A importância do Processo Civil para a advocacia
Para o advogado, conhecer o Direito Material é
indispensável.
Entretanto, conhecer o Processo Civil é igualmente
essencial.
É por meio dele que o direito reconhecido pela lei pode
ser efetivamente concretizado.
Um excelente direito pode ser perdido se o advogado
desconhecer regras processuais relativas a:
- competência;
- prazos;
- recursos;
- produção
de provas;
- cumprimento
de decisões;
- execução.
Por essa razão, costuma-se afirmar que o Processo Civil
representa a ferramenta de trabalho do advogado.
Erros frequentes de quem inicia o estudo do Processo
Civil
Entre os equívocos mais comuns destacam-se:
- acreditar
que Processo Civil é apenas um conjunto de prazos;
- estudar
artigos isoladamente, sem compreender os princípios;
- decorar
dispositivos legais sem entender sua finalidade;
- confundir
ação, processo e procedimento;
- ignorar
a importância da Constituição na interpretação do CPC.
O estudo do Processo Civil exige visão sistêmica.
Cada instituto dialoga com diversos outros.
O Processo Civil como instrumento de cidadania
O Processo Civil não protege apenas interesses
individuais.
Ele fortalece toda a sociedade.
Quando o cidadão sabe que existe um sistema confiável
para resolver conflitos, aumenta sua confiança nas instituições.
Da mesma forma, empresas investem com maior segurança
quando existe previsibilidade na atuação do Poder Judiciário.
Assim, o Processo Civil também contribui para o
desenvolvimento econômico e para a estabilidade das relações sociais.
Ao longo da minha trajetória como advogado, professor e integrante de diversas instituições públicas, aprendi que o Processo Civil não deve ser estudado apenas como uma disciplina acadêmica. Ele precisa ser compreendido como um instrumento de realização da Justiça.
Percebo, com frequência, que muitos estudantes concentram
seus esforços em memorizar artigos do Código de Processo Civil. Naturalmente,
conhecer a legislação é indispensável. Contudo, mais importante do que decorar
dispositivos é compreender a lógica que sustenta o sistema processual. Quando
entendemos os princípios que orientam o processo, passamos a interpretar cada
norma com muito mais segurança e coerência.
Também observo, na prática profissional, que os melhores
advogados não são necessariamente aqueles que conhecem o maior número de leis,
mas os que sabem utilizá-las com estratégia, responsabilidade e ética. O
Processo Civil exige preparo técnico, organização, planejamento e constante
atualização.
Como professor, sempre procurei mostrar aos meus alunos
que estudar Processo Civil é aprender como o Direito se concretiza na vida das
pessoas. É nele que direitos deixam de ser apenas promessas abstratas e passam
a produzir efeitos concretos na realidade.
É essa visão que desejo compartilhar nesta série: um
Processo Civil compreendido em sua essência, voltado à efetividade da Justiça e
ao fortalecimento da advocacia.
Esdras Dantas de Souza
Advogado • Professor • Escritor Jurídico
Presidente da Associação Brasileira de Advogados – ABA
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