Entendendo o Processo Civil - Artigo 2 - Qual é a função do Código de Processo Civil?
Por Esdras Dantas de Souza
Imagine uma grande competição esportiva sem regulamento.
Cada equipe criaria suas próprias regras, o árbitro decidiria conforme sua
vontade e os participantes jamais saberiam o que esperar do resultado. Em pouco
tempo, a disputa deixaria de ser justa.
O mesmo aconteceria com a Justiça se não existisse um
conjunto de normas disciplinando a forma como os conflitos devem ser
solucionados.
É exatamente essa a missão do Código de Processo Civil
(CPC).
Muitas pessoas acreditam que o Código de Processo Civil
existe apenas para orientar juízes e advogados. Na realidade, sua função é
muito mais ampla: ele protege o cidadão, organiza o funcionamento do Poder
Judiciário e estabelece um procedimento que busca assegurar decisões justas,
imparciais e previsíveis.
Compreender a finalidade do CPC é compreender um dos pilares
do Estado Democrático de Direito.
O que é o Código de Processo Civil?
O Código de Processo Civil é a lei que disciplina como os
processos civis devem tramitar perante o Poder Judiciário.
Enquanto o Código Civil define direitos e obrigações — como
contratos, propriedade, família, sucessões e responsabilidade civil — o Código
de Processo Civil estabelece o caminho para que esses direitos possam ser
reconhecidos e protegidos quando surge um conflito.
Em outras palavras:
- o
Código Civil responde quem tem o direito;
- o
Código de Processo Civil explica como esse direito será reconhecido
pela Justiça.
Essa distinção é fundamental para quem começa a estudar
Direito.
Não cria direitos: protege direitos
Um equívoco comum consiste em imaginar que o Código de
Processo Civil cria direitos.
Na verdade, sua função principal é outra.
Ele oferece instrumentos para que direitos já existentes
possam ser efetivamente exercidos.
Por exemplo:
Uma pessoa vende um imóvel.
O comprador não paga.
O direito ao recebimento do preço decorre do contrato e do
Código Civil.
Já a forma de cobrar judicialmente essa dívida será
disciplinada pelo Código de Processo Civil.
Sem o processo, muitos direitos permaneceriam apenas no
papel.
O CPC organiza toda a atividade jurisdicional
O Código também estabelece regras para praticamente todos os
atos praticados dentro de um processo.
Entre eles:
- como
ajuizar uma ação;
- como
citar o réu;
- quais
documentos apresentar;
- quais
provas podem ser produzidas;
- quando
ocorre audiência;
- como
funciona a perícia;
- quais
recursos são cabíveis;
- como
cumprir uma sentença;
- como
executar uma decisão judicial.
Nada disso pode depender da vontade pessoal do juiz.
Tudo precisa seguir regras previamente estabelecidas.
É justamente essa previsibilidade que transmite segurança
jurídica.
Garantir igualdade entre as partes
Talvez uma das maiores funções do Código de Processo Civil
seja assegurar que ambas as partes tenham oportunidades equivalentes de
defender seus interesses.
Por isso, o CPC consagra princípios fundamentais como:
- contraditório;
- ampla
defesa;
- cooperação;
- boa-fé
processual;
- isonomia;
- publicidade;
- duração
razoável do processo.
Esses princípios impedem que uma das partes seja
surpreendida por decisões tomadas sem possibilidade de manifestação.
Em um processo civil, ninguém deve ser condenado sem antes
ter oportunidade de apresentar sua versão dos fatos.
Essa garantia fortalece a confiança na Justiça.
O juiz também deve obedecer ao Código
Outra ideia equivocada bastante difundida é imaginar que o
juiz pode decidir livremente conforme sua consciência.
Naturalmente, o magistrado possui independência para formar
seu convencimento.
Mas essa independência não significa liberdade absoluta.
O juiz também está submetido ao Código de Processo Civil.
Ele deve:
- respeitar
os prazos;
- fundamentar
suas decisões;
- observar
os precedentes obrigatórios;
- assegurar
o contraditório;
- tratar
igualmente as partes;
- cumprir
todas as garantias processuais.
Assim, o CPC protege não apenas os cidadãos, mas também a
própria legitimidade da atividade jurisdicional.
Segurança jurídica para toda a sociedade
Imagine duas pessoas vivendo situações praticamente
idênticas.
Se cada juiz pudesse criar livremente suas próprias regras
processuais, os resultados seriam imprevisíveis.
O Código procura evitar exatamente isso.
Quando estabelece procedimentos uniformes, aumenta a
estabilidade das decisões e reduz a sensação de injustiça.
Empresas investem com mais segurança.
Cidadãos celebram contratos com maior confiança.
Instituições públicas atuam de maneira mais previsível.
A segurança jurídica é um dos grandes objetivos do processo
civil moderno.
Um Código voltado para soluções mais rápidas
O atual Código de Processo Civil, em vigor desde 2016, foi
elaborado buscando tornar o processo mais eficiente.
Entre suas principais preocupações estão:
- estimular
a conciliação;
- incentivar
a mediação;
- reduzir
formalismos desnecessários;
- valorizar
precedentes;
- prestigiar
soluções consensuais;
- combater
recursos meramente protelatórios.
O objetivo é simples.
O processo não deve existir para gerar burocracia.
Ele existe para solucionar conflitos.
Quanto mais rapidamente essa solução for alcançada — sem
sacrificar a justiça da decisão — melhor para toda a sociedade.
Cooperação: uma das grandes novidades
O Código atual introduziu um conceito extremamente
importante.
Todos os participantes do processo devem cooperar para
alcançar uma decisão justa.
Isso significa que:
- juiz;
- advogados;
- Ministério
Público;
- Defensoria
Pública;
- partes.
Todos possuem deveres de colaboração.
O processo deixa de ser uma "guerra" em que vale
qualquer estratégia e passa a ser um procedimento voltado à descoberta da
solução juridicamente correta.
Esse modelo cooperativo representa uma importante evolução
do processo civil brasileiro.
Muito além dos tribunais
Embora normalmente seja lembrado apenas quando alguém
ingressa com uma ação judicial, o Código de Processo Civil influencia diversos
aspectos da vida cotidiana.
Ele orienta:
- cobranças
judiciais;
- inventários;
- partilhas;
- disputas
de condomínio;
- conflitos
empresariais;
- ações
de indenização;
- questões
familiares;
- execuções
de contratos;
- cumprimento
de decisões.
Milhões de brasileiros têm seus direitos protegidos
diariamente pelas normas processuais, muitas vezes sem sequer perceber.
Conclusão
O Código de Processo Civil não existe para dificultar o
acesso à Justiça.
Ao contrário.
Sua verdadeira função é garantir que todos sejam tratados de
forma igual, que as decisões sejam fundamentadas, que os procedimentos sejam
transparentes e que os direitos possam ser efetivamente protegidos.
Sem regras processuais, a Justiça seria imprevisível.
Sem previsibilidade, desapareceria a confiança nas
instituições.
Por isso, compreender o Código de Processo Civil é
compreender como o Estado transforma direitos abstratos em proteção concreta
para o cidadão.
Esdras Dantas de Souza é advogado, processo e especialista em Direito Público Interno
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