Esdras Dantas de Souza explica, de forma clara, a regularização da capacidade processual e da representação
Quando o processo precisa ser ajustado para não morrer antes do julgamento
No universo do processo civil, há uma máxima silenciosa, mas
poderosa: não basta ter razão — é preciso estar regularmente representado
para que o Judiciário possa reconhecê-la.
E aqui reside um dos pontos mais importantes — e muitas
vezes negligenciados — da prática forense: a regularização da capacidade
processual e da representação processual.
Este tema, previsto no Código de Processo Civil,
especialmente no art. 76, não é apenas técnico. Ele é decisivo. Pode significar
a continuidade do processo… ou sua extinção prematura.
Capacidade processual e representação: o ponto de partida
Antes de falarmos em regularização, precisamos compreender o
problema.
A capacidade processual é a aptidão para praticar
atos no processo em nome próprio. Nem todos a possuem diretamente — como os
incapazes, por exemplo.
Já a representação processual diz respeito à atuação
por meio de terceiros legitimados, como:
- Advogados
(regra geral)
- Representantes
legais (pais, tutores, curadores)
- Procuradores
regularmente constituídos
Quando há falha em qualquer desses elementos, surge um vício
que compromete a validade dos atos processuais.
Mas o sistema processual brasileiro — inspirado na
Constituição Federal do Brasil de 1988 — não privilegia o formalismo
excessivo. Ao contrário, busca preservar o processo sempre que possível.
O dever do juiz: permitir a regularização
O art. 76 do CPC é claro ao estabelecer:
Verificada a incapacidade processual ou irregularidade da
representação, o juiz deve suspender o processo e conceder prazo para que o
vício seja sanado.
Ou seja:
o processo não deve ser extinto de imediato.
O magistrado tem o dever de oportunizar a correção.
Isso revela um princípio fundamental do processo moderno:
primazia da decisão de mérito
Como funciona a regularização na prática?
A regularização pode ocorrer em diversas situações do
cotidiano forense:
✔ Falta de procuração
O advogado ajuíza a ação sem juntar procuração.
➡ O juiz deve intimar para
regularizar.
✔ Procuração com defeito
Exemplo: ausência de poderes específicos ou irregularidade
formal.
➡ Também há possibilidade de
correção.
✔ Parte incapaz sem
representante
Menor ou interditado sem assistência adequada.
➡ Deve ser nomeado representante
ou curador.
✔ Pessoa jurídica sem
comprovação de representação
Ausência de contrato social ou documento que comprove
poderes do representante.
➡ Deve ser sanada mediante
juntada documental.
Consequências da não regularização
Aqui está o ponto crítico — e onde muitos processos
“morrem”.
Se a parte não corrige o vício no prazo concedido, o
CPC estabelece consequências diferentes, conforme o polo:
🔹 Se o vício for do
autor:
➡ O processo pode ser extinto
sem resolução do mérito.
🔹 Se for do réu:
➡ Ele será considerado revel.
🔹 Se for de terceiro:
➡ Será excluído do processo.
Perceba: o sistema dá a oportunidade, mas também exige
responsabilidade.
Entendimento dos tribunais superiores
A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça é firme no
sentido de que:
A ausência de regularização, após intimação válida,
autoriza a aplicação das penalidades legais.
Mas também reforça:
Não se pode extinguir o processo sem antes oportunizar a
correção.
Já o Supremo Tribunal Federal valoriza o princípio do acesso
à justiça, evitando decisões excessivamente formalistas que impeçam a análise
do mérito.
Princípios por trás da regularização
Esse tema não é apenas procedimental. Ele está ligado a
pilares do processo civil contemporâneo:
- Instrumentalidade
das formas
- Primazia
do julgamento de mérito
- Cooperação
processual
- Acesso
à justiça
O processo não é uma armadilha.
É um instrumento de solução de conflitos.
Dica prática para advogados
Se há um conselho direto e valioso, é este:
Revise sempre a regularidade da representação antes de
qualquer protocolo.
Checklist essencial:
- Procuração
assinada?
- Poderes
específicos incluídos (quando necessário)?
- Documentos
da pessoa jurídica atualizados?
- Representação
de incapazes regular?
Evitar o problema é sempre mais barato — e menos
constrangedor — do que corrigi-lo depois.
Conclusão: o processo não pode morrer por descuido
A regularização da capacidade e da representação processual
é um mecanismo de equilíbrio.
Ela impede que o processo seja destruído por falhas formais,
mas também exige diligência das partes e de seus advogados.
Em outras palavras:
O Judiciário oferece a chance de corrigir — mas não pode
substituir a responsabilidade do profissional.
E aqui está a síntese que todo advogado deve guardar:
“No processo civil moderno, a forma serve ao direito — mas o
descuido com a forma pode impedir que o direito seja reconhecido.”
Por Esdras
Dantas de Souza
Advogado, Professor e Presidente da Associação Brasileira de Advogados (ABA)
www.abanacional.com.br
Série: Artigos apresentados aos associados da ABA para o
seu aperfeiçoamento.
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